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terça-feira, 18 de outubro de 2016

COLUNA ENSAIO GERAL: CHICO FELICIANO

           
             
Por:
Alexandre Tenório


          Era um homem alto, olhos verdes, pele branca e cabelos castanhos claros, ele impunha respeito. Este homem era meu bisavô por parte de minha mãe. Era natural da cidade de Jupi, porém logo novinho veio morar em Bom Conselho, seu pai o velho Feliciano José dos Santos, morreu aos 111 anos de idade, e foi o responsável pela a primeira pessoa a ser enterrada no cemitério de Santa Marta, pois tinha passado fogo num camarada que tinha lhe desacatado, por este crime ficou um tempo em Fernando de Noronha preso, e quando era perguntado sobre este crime, ele já velho dizia – nunca se deve bater na cara de um homem.

          Francisco Feliciano dos Santos, mais conhecido por Chico Feliciano ou Chico Garrapão, era um boêmio nato, foi dono da primeira banca de jogo de bicho em nossa cidade, gostava de jogar baralho e quando se sentava numa mesa de jogo, sabia a hora que tinha começado, porém não sabia à hora de terminar.

          Foi dono da primeira revenda FORD no interior de Pernambuco, pois é - Bom Conselho já teve uma agência de Automóvel. Foi dono do primeiro carro de nossa cidade um FORD T, que ele abria as cancelas no peito sem ter de descer para abrir. Muitas vezes ia para a cidade de Correntes, visitar o seu amigo Odilon Lúcio, e lá ficava bebendo e jogando por vários dias. No seu carro não faltava aguardente, mel de uruçu e uma boa braçada de linguiça caseira. Ele gostava de beber cachimbo (bebida feita de cachaça e mel), por isto ele já andava preparado, aonde chegasse e não tivesse os ingredientes para fazer o cachimbo ele ia ao carro e preparava na hora sua bebida.

          Ele era gago, e quando aperreado não saia nenhuma palavra da sua boca. Esta deficiência foi transmitida em grau menor para vários descendentes, inclusive este que vos escreve. Quando pequeno eu era tão gago que muitas vezes era necessário subir numa mesa e pular para ai sair às palavras. Levei muita colher de pau na cabeça, que era forma da palavra sair.

          Na febre espanhola de 1918 que assolou o nosso país e no qual se fala que morreu2000 pessoas em nossa cidade, acho este numero exagerado, porém era o que eu sempre ouvi os mais velhos falarem. Meu bisavô Chico Feliciano, levou toda família para o seu sitio no Papacacinha, e com isto salvou a todos desta terrível epidemia que assolou nossa cidade.
 
          Ele era ALFERES DA GUARDA NACIONAL, tinha espada e tudo, era um homem bem conceituado em nossa cidade. Casou com Rosa Brandão e teve três filhos, Fausto, Xisto e Berenice (minha avó). Antes de casar com minha bisavó Rosa, teve um caso com a sua irmã Júlia e deste caso nasceu meu tio José Feliciano (José Bicho Velho) que é o pai de Dr. Daniel Brasileiro.

          Muitas vezes dizia, Rosa vou ali volto já, passava três ou quatro dias para chegar. Quando da chegada do dirigível ZEPELIN em Recife ele foi com toda família ver este grande acontecimento, que movimentou todo Pernambuco.

          Certa feita foi ao Juazeiro pedir a benção a Padre Cicero, no dia que ia voltar foi se despedir do santo padre é ele recomendou que ele deixasse para o outro dia, se assim ele fizesse ele teria uma viagem tranquila, sem nenhum incômodo. Pois na sua ida aconteceram alguns atropelos.Meu bisavô atendeu ao apelo do padre Cicero e realmente teve uma viagem de volta tranquila.

          Naquela época o nosso pároco Padre Alfredo tinha uma birra com Padre Cicero, via por outra metia o sarrafo nele. Na audiência que meu bisavô teve com Padre Cicero ele mandou um recado para Padre Alfredo – Francisco diga a Alfredo que a terceira linha logo após a entrada da Igreja Matriz o pé do lado direito esta corroída por cupim e vai cair se cair vai causar um grande desastre na Igreja Matriz.  Meu bisavô assim que chegou a Bom Conselho foi ter com Padre Alfredo, e deu o recado de Padre Cicero, e realmente a terceira linha estava corroída conforme Padre Cicero tinha dito, dai por diante nunca mais Padre Alfredo falou de Padre Cicero.

          Embora tenha tido três filhos homens, era a minha avó que ele dedicava todo carinho, para onde ia levava ela, ao invés dos filhos homens. Minha avó Berenice foi criada sem medo de nada, era forte e decidida, tudo isto ela puxou ao seu pai, e também a maneira como ela foi criada.


          Chico Feliciano morreu com pouco mais de 60 anos, e deixou boas lembranças para a família.

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